
Dentre as mais controversas medidas de conservação ambiental, está o banimento das sacolas plásticas. O tema divide opiniões e desperta polêmicas aqui no Brasil, depois de ter sido foco de amplo debate em outros países. Mas o que há de fato e de ficção nos argumentos por trás do banimento?
Quais são os motivos?
A bem da verdade, o plástico não é, definitivamente, uma forma de transporte inofensiva para o meio ambiente, principalmente por dois motivos essenciais: o imenso número de sacos produzidos por ano (cerca de 150 por pessoa ) e a natureza não biodegradável do polímero que lhes serve como base. Some-se a isso a fato de que este mesmo polímero é feito a partir de combustível fóssil (petróleo), que acarreta a emissão de gases poluentes, e temos um vilão ambiental em potencial.
Cerca de 90% dos sacos de plástico são descartados em lixeiras, ou diretamente no meio ambiente. Mesmo sendo responsáveis por apenas 0,3% do volume acumulado nas lixeiras, trata-se de material leve, que por isso mesmo tende a acabar indo parar no lugar errado, em razão do vento, da chuva, e outros fatores que carregam os saquinhos consigo. Essa particularidade é responsável por outros tipos de degradação ambiental, além do acúmulo de material não biodegradável e a emissão de poluentes gasosos.
A grande maioria dos sacos, desta forma, acaba em ecossistemas fluviais, marinhos ou lacustres, onde são uma causa de fatalidades potenciais para a biodiversidade. Golfinhos, baleias, tartarugas, peixes e aves marinhas morrem aos milhares, asfixiados ou intoxicados por estes resíduos. Os sacos que vão para os aterros sanitários, além de não se decomporem, acabam interferindo na velocidade da taxa de decomposição de outros resíduos acondicionados dentro deles, tornando-a mais lenta, e consequentemente exigindo ainda mais do meio ambiente.
Por outro Lado…
foram desenvolvidos materiais plásticos biodegradáveis, que apesar de custarem mais, diminuem sensivelmente o impacto ambiental causado pelos sacos comuns. Se tivermos em conta que um saco plástico comum demora cerca de 100 anos (dependendo de diversos fatores) para se decompor, e um biodegradável se deteriora em média em 60 dias a 18 meses (no caso dos oxi-biodegradáveis), temos uma boa ideia do tamanho da diferença em termos ecológicos.
Aqui mesmo, no Brasil, temos empresas como a RES, que produz plástico biodegradável a partir de polímeros baseados no álcool proveniente de cana de açúcar, por exemplo. E não é só a partir da matéria prima dos polímeros que se pode trabalhar para desenvolver plásticos menos agressivos: nesse caso, a biotecnologia também se mostra uma grande aliada, pois desde 2009 já existem plásticos que utilizam a ação de bactérias como fator de aceleração na sua decomposição. O IPT (Instituto de pesquisas tecnológicas) de São Paulo, em associação com laboratórios na Bélgica e na Alemanha, conseguiu produzir um polímero duplamente biodegradável, utilizando uma bactéria que se alimenta diretamente de açúcar e transforma o excedente de seu metabolismo em um plástico biodegradável chamado PHB (poli-hidroxibutirato). Também há pesquisas que demonstram que certos fungos são capazes de se alimentar de compostos de plástico, material de que são feitas as sacolinhas comuns.
Mas…e o consumidor?
Para este, existem sempre, além dos prós e contras de um material, os usos para os quais o destinam. E no caso das sacolinhas, não são poucos. Além de já fazerem parte de uma “cultura” de consumo, as sacolinhas plásticas justificaram seu ingresso nessa cultura, com utilidades variadas, desde a mais óbvia, de transporte de mercadorias, até o seu uso no descarte de outros materiais, como forma de acondicionar lixo. As sacolinhas servem como alternativa à compra de sacos plásticos, nesse caso, por exemplo. São práticas, não tem custo palpável, e podem ser utilizadas para descartar quase qualquer tipo de material, exatamente por serem feitas de plastico, que é impermeável e resistente. Esses são motivos pelos quais muitas pessoas resistem a ideia de abandonar o uso de algo tão prático. E muitas outras pessoas simplesmente não conhecem meios para substituí-lo, e outras tantas não concordam com as medidas alternativas, por variadas razões.
E quais são as alternativas?
Vamos à prática: para substituir as sacolas plásticas, há duas opções, as embalagens de papel e as chamadas “ecobags” de algodão. E ambas também tem sua parte na degradação ambiental. Um dos argumentos mais populares é que o uso de papel para as embalagens seria tão danoso para o meio ambiente quanto o do plástico, mas em outros aspectos: a produção de papel sempre envolve o uso de madeira, que implica em desmatamento, e mesmo a madeira oriunda de reflorestamento nem sempre é uma alternativa sustentável, uma vez que muitas vezes as árvores usadas para este fim – eucalipto, pinus, teca – são espécies exóticas, prejudiciais aos ecossistemas locais. Ademais, muitas etapas envolvidas na produção de papel envolvem processos químicos poluentes. Além disso, embalagens de papel não são reutilizáveis.
Já sobre as “ecobags”, paira o mesmo problema em relação à reutilização (embora em níveis muito menores), e principalmente um outro entrave à sustentabilidade: são produzidas a partir do algodão, material que tem alto custo em termos de emissão de CO² envolvidos em sua fabricação e distribuição e também causa problemas relacionados ao desmatamento, já que o algodão precisa ser plantado em algum lugar antes de ser processado, e quanto mais algodão se planta, mais áreas precisam ser desmatadas. Por estes motivos, segundo relatório da Agência Britânica do Meio Ambiente, os sacos de plástico tradicionais são 200 vezes menos prejudiciais ao meio ambiente que as ecobags.
Há ainda a opção, em voga em países como a Alemanha, e em vias de se tornar vigente no Brasil, de manter o material, mas reduzir seu uso e cobrar pelas sacolas ( a exemplo da “Plas Tax” irlandesa ), destinando assim o lucro obtido dessa cobrança para programas de conservação ambiental e reciclagem das próprias embalagens. Alguns países, como Portugal, planejam incentivar o consumidor a abandonar as sacolas estabelecendo descontos para quem não faz uso delas. Tudo visando minimizar o uso.
Fazendo um balanço geral,
Bem, se analisadas levando em conta a matéria prima e os meios de produção, todas as alternativas, sacos plásticos, de papel ou algodão, são prejudiciais ao meio ambiente, de formas diferentes. E agora? Beco sem saída? Estamos condenados a uma existência que agride o meio em que vivemos, e cada vez que vamos ao supermercado estamos colocando em risco toda biosfera? Bem, sim e não.
Sim, porque as embalagens que utilizamos invariavelmente tem um custo ambiental. Não porque esse custo pode ser minimizado, e isso depende exclusivamente do uso que se faz dos materiais, e do destino que damos a eles durante sua vida útil e no momento do descarte. Esse viés, o da responsabilidade do consumidor, é pouquíssimo debatido, e, por aqui, ao que parece, as autoridades (governamentais ou não) preferem sustentar posições maniqueístas utilizar medidas proibicionistas a fomentar o debate.Ao invés de atribuir a responsabilidade pelo que é feito com um material após este ter servido a quem o utiliza, prefere-se, via de regra, demonizar o material, e louvar outros sem pensar sobre as consequências de uso destes.
Quantas pessoas pararam pra pensar no custo de uma ecobag em termos de degradação ambiental? Quantas pensaram no impacto de uma monocultura de cana de açúcar para produzir plástico biodegradável? E o que dizer sobre o papel, que pelos métodos atuais de produção demanda invariavelmente que se desmate ou que se refloreste, e via de regra, com espécies exóticas e danosas ao ecossistema nativo? Simplesmente dizer que as sacolinhas devem ser banidas nada é mais que perpetuar a ignorância em relação ao que se pode fazer para minimizar seu impacto e polarizar a opinião pública, fazendo com que se veja preto ou branco, quando há uma variada gama de cinzas entre os dois extremos. Talvez seja mais fácil destacar um culpado e criar um vilão, ao invés de realmente tomar medidas que exigiriam um pouco mais de esforço, como fazer chegar informação ao consumidor. Informação que lhe permitiria julgar o que é mais viável, e educar-se para causar o mínimo de impacto ecológico negativo.
E a conclusão é que…
sacolas plásticas não vão voluntariamente para os lugares onde lesam o meio ambiente. Pessoas as descartam de modo incorreto e indiretamente as colocam onde não deveriam estar. O mesmo ocorre com o papel, com os tecidos, e com uma gama imensa de materiais que se corretamente descartados e reciclados, teriam seu impacto incrivelmente reduzido, inclusive colaborando para reduzir o alcance de uma cadeia de produção predatória, que prejudica diretamente essas mesmas pessoas. Não há uma verdade absoluta em relação ao tema das sacolas plásticas, assim como não costuma haver em relação a qualquer tema. Mais que o material de que é feita uma embalagem para transporte, o uso que dela se faz e o destino que a ela se dá após esse uso é que fazem a diferença em termos de sustentabilidade. Não é racional aceitar respostas prontas, e sem racionalidade, é muito difícil pensar em sustentabilidade.